Disciplina ou motivação: o que realmente nos faz continuar?

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10 min

Disciplina ou motivação?

Há dias em que acordamos com vontade de mudar tudo.

Estamos motivadas, fazemos planos, organizamos a agenda e sentimos que, desta vez, vai ser diferente.

Começamos aquele livro.

Voltamos aos treinos.

Começamos a estudar.

Organizamos a nossa rotina.

Definimos novos objectivos.

E durante alguns dias parece fácil.

Até que a motivação desaparece.

Acordamos sem vontade. Ficamos cansadas. Temos outras coisas para fazer. O dia não corre como planeámos.

E então surge aquela pergunta:

“Como é que algumas pessoas conseguem continuar mesmo quando já não estão motivadas?”

Talvez a resposta esteja na disciplina.

Mas isso também não significa que precisamos de nos transformar em pessoas extremamente rígidas, que fazem tudo independentemente de como se sentem.

Na verdade, acho que precisamos primeiro de perceber qual é realmente a diferença entre motivação e disciplina.

Porque procrastinamos mesmo quando sabemos que precisamos de agir?

O que é motivação?

Motivação é aquilo que nos dá vontade de fazer alguma coisa.

É aquela sensação de entusiasmo que aparece quando temos um novo objectivo.

Quando decidimos começar a fazer exercício porque queremos sentir-nos melhor.

Quando encontramos um assunto que queremos aprender.

Quando temos uma ideia nova e mal podemos esperar para começar.

A motivação pode ser muito poderosa.

O problema é que ela não é constante.

Há dias em que temos muita.

Há dias em que temos pouca.

E há dias em que simplesmente não temos nenhuma.

É por isso que depender exclusivamente da motivação pode tornar difícil manter um hábito a longo prazo.

Porque se só agirmos quando estamos motivadas, o nosso comportamento passa a depender demasiado do nosso estado emocional naquele momento.


Então o que é disciplina?

Disciplina é a capacidade de continuar a agir de acordo com aquilo que decidimos que é importante, mesmo quando não estamos com vontade.

Não significa obrigarmo-nos a fazer tudo.

Não significa ignorar o cansaço.

E muito menos significa sermos duras connosco próprias o tempo inteiro.

Disciplina pode ser simplesmente dizer:

“Eu não estou com vontade hoje, mas isto continua a ser importante para mim.”

E então fazemos uma pequena parte.

Talvez não estudemos duas horas.

Estudamos vinte minutos.

Talvez não façamos o treino completo.

Fazemos uma caminhada.

Talvez não consigamos escrever três páginas.

Escrevemos um parágrafo.

A disciplina não precisa de ser espectacular.

Muitas vezes, ela parece bastante normal.


Disciplina ou motivação: qual é mais importante?

Eu não acho que seja preciso escolher uma.

Motivação e disciplina têm funções diferentes.

A motivação pode ajudar-nos a começar.

A disciplina ajuda-nos a continuar.

A motivação pode dar-nos energia.

A disciplina ajuda-nos a agir quando essa energia diminui.

A motivação pode fazer-nos querer mudar.

A disciplina ajuda-nos a transformar essa vontade em comportamento.

Por isso, em vez de pensarmos:

“Preciso de escolher entre disciplina e motivação.”

Talvez seja mais útil pensar:

“Como posso usar a motivação para começar e a disciplina para continuar?”


O problema de esperar pela motivação

Quantas coisas já deixaste para depois porque estavas à espera de ter vontade?

“Vou estudar quando estiver mais concentrada.”

“Vou começar a treinar quando estiver mais motivada.”

“Vou organizar a minha vida quando tiver mais energia.”

“Vou começar o projecto quando estiver inspirada.”

O problema é que esse momento pode demorar muito a chegar.

E existe uma coisa que aprendi sobre começar:

às vezes a vontade aparece depois da acção, e não antes.

Começamos sem grande vontade.

Fazemos os primeiros cinco minutos.

Depois percebemos que afinal não era tão difícil.

Continuamos mais um pouco.

E, quando damos por nós, já estamos envolvidos na tarefa.

É por isso que, em alguns momentos, não precisamos de procurar mais motivação.

Precisamos simplesmente de diminuir a dificuldade de começar.


Como ter disciplina quando não estás motivada?

Não existe uma fórmula perfeita, mas existem algumas coisas que podem ajudar.

1. Decide antes de chegar o momento

Quanto mais decisões tivermos de tomar no momento, mais fácil é negociar connosco próprias.

“Será que treino hoje?”

“Será que estudo agora?”

“Será que faço amanhã?”

E começamos a discutir connosco mesmas.

Uma forma de reduzir isso é decidir previamente.

Por exemplo:

“Vou estudar de segunda a sexta depois do jantar.”

Ou:

“Vou caminhar 20 minutos depois do pequeno-almoço.”

Não precisas de decidir novamente todos os dias.

A decisão já foi tomada.


2. Não dependas apenas da força de vontade

Se queres estudar, prepara o material antes.

Se queres treinar, deixa a roupa pronta.

Se queres ler, deixa o livro perto da cama.

Se queres passar menos tempo nas redes sociais, tira as aplicações do ecrã principal ou deixa o telemóvel longe durante determinados momentos.

A disciplina também passa por criar um ambiente que facilite aquilo que queremos fazer.

Quanto menos obstáculos existirem entre nós e o hábito, mais fácil será começar.


3. Cria uma versão mínima para os dias difíceis

Isto é algo que considero muito importante.

Não podemos esperar que todos os dias tenham a mesma energia.

Por isso, podemos ter uma versão normal e uma versão mínima dos nossos hábitos.

Por exemplo:

Estudar:
Normal → 1 hora
Mínimo → 10 minutos

Ler:
Normal → 20 páginas
Mínimo → 2 páginas

Exercício:
Normal → 40 minutos
Mínimo → 5 minutos

Journaling:
Normal → uma página
Mínimo → três frases

A versão mínima não existe para substituir o nosso esforço.

Existe para aqueles dias em que fazer tudo parece impossível.

Porque manter uma ligação com o hábito pode ser melhor do que abandoná-lo completamente.

Como criar hábitos que realmente consegues manter


4. Aprende a fazer as coisas mesmo sem vontade

Esta talvez seja a parte mais difícil.

Precisamos de aceitar que nem sempre vamos querer fazer aquilo que decidimos fazer.

E está tudo bem.

Não precisamos de transformar cada falta de vontade num problema.

Não estou com vontade de estudar.

Tudo bem.

Não estou com vontade de treinar.

Tudo bem.

Não estou com vontade de trabalhar naquele projecto.

Tudo bem.

A pergunta passa a ser:

“Mesmo sem vontade, qual é a menor coisa que consigo fazer?”

Às vezes são cinco minutos.

Às vezes é apenas começar.

Mas começar ensina-nos algo importante:

não precisamos de sentir vontade para agir.


5. Não confundas disciplina com ignorar o cansaço

Também precisamos de ter cuidado com o discurso de “faz mesmo sem vontade”.

Porque existem dias em que realmente precisamos de descansar.

Disciplina não é trabalhar até ao limite todos os dias.

Não é acordar às cinco da manhã porque alguém na internet disse que pessoas disciplinadas fazem isso.

Não é sentir culpa por descansar.

Se estás exausta, talvez a decisão mais disciplinada seja descansar.

Se estás doente, talvez seja parar.

Se estás emocionalmente sobrecarregada, talvez precises de reduzir o ritmo.

Disciplina também é saber quando insistir e quando parar.

O objectivo não é fazer mais a qualquer custo.

É aprender a gerir a nossa energia de forma que consigamos continuar a longo prazo.


6. Para de procurar consistência perfeita

Talvez uma das maiores armadilhas seja pensar que ser consistente significa nunca falhar.

Não significa.

Vais perder dias.

Vais ter semanas menos produtivas.

Vais acordar tarde.

Vais abandonar uma rotina durante algum tempo.

Vais ter momentos em que simplesmente não consegues.

Isso não significa que perdeste toda a disciplina que construíste.

O mais importante é voltar.

Um dia sem treinar não significa que deixaste de ser uma pessoa que se exercita.

Uma semana sem ler não significa que já não és alguém que gosta de ler.

Um período improdutivo não significa que és preguiçosa.

Precisamos de aprender a distinguir:

“Eu falhei neste hábito.”

de

“Eu sou uma pessoa que nunca consegue manter nada.”

A primeira é uma situação.

A segunda transforma uma situação numa identidade.

E isso pode ser muito mais difícil de ultrapassar.


7. Lembra-te do motivo pelo qual começaste

Quando a motivação desaparece, pode ajudar voltar à razão inicial.

Por que querias aprender aquela língua?

Por que começaste aquele curso?

Por que querias melhorar a tua saúde?

Por que começaste aquele projecto?

Por que queres organizar melhor a tua vida?

Um objectivo sem significado pode rapidamente transformar-se numa obrigação.

Mas quando sabemos porque estamos a fazer alguma coisa, torna-se mais fácil continuar mesmo quando o entusiasmo inicial desaparece.

Não precisas de estar apaixonada pelo processo todos os dias.

Mas precisas de saber para onde estás a caminhar.


E se eu perder completamente a motivação?

Primeiro: não entres imediatamente em pânico.

A motivação não desaparecer para sempre só porque estás cansada neste momento.

Talvez precises de descansar.

Talvez o teu objectivo precise de ser ajustado.

Talvez tenhas colocado expectativas demasiado altas.

Talvez simplesmente estejas a passar por uma fase difícil.

Em vez de te perguntares:

“Porque é que já não tenho motivação?”

podes perguntar:

“Ainda quero isto?”

Se a resposta for sim, talvez seja altura de simplificar.

Se a resposta for não, talvez seja altura de perceber porquê.

Nem todo objectivo precisa de ser mantido para sempre.

Às vezes, disciplina significa continuar.

Outras vezes, significa reconhecer que aquilo que queríamos já não faz sentido para nós.


A disciplina constrói-se

Não precisamos de nascer disciplinadas.

Disciplina é uma habilidade que podemos desenvolver.

Cada vez que cumprimos uma pequena promessa que fizemos a nós próprias, estamos a praticar.

Cada vez que voltamos depois de falhar, estamos a praticar.

Cada vez que fazemos uma tarefa mesmo sem estar perfeitamente motivadas, estamos a praticar.

E isso também significa que não precisamos de começar com grandes mudanças.

Podemos começar com uma coisa pequena.

Escolher um horário.

Criar um hábito.

Cumprir uma pequena promessa.

Voltar quando falharmos.

E repetir.

É assim que a confiança em nós mesmas também começa a crescer.

Porque passamos a ter provas de que conseguimos confiar na nossa própria palavra.


Então, afinal, disciplina ou motivação?

Talvez a pergunta esteja ligeiramente errada.

Não precisamos de escolher entre as duas.

Precisamos das duas, mas para coisas diferentes.

A motivação pode acender a faísca.

A disciplina ajuda-nos a manter o fogo aceso.

Mas até o fogo precisa de combustível.

E esse combustível pode ser descanso, propósito, ambiente, hábitos pequenos e expectativas realistas.

Por isso, da próxima vez que acordares sem vontade de fazer aquilo que tinhas planeado, não precisas de esperar que a motivação volte.

Também não precisas de te obrigar a fazer tudo.

Pergunta simplesmente:

“Qual é a menor coisa que posso fazer hoje para continuar a caminhar na direcção que escolhi?”

Talvez sejam dez minutos.

Talvez seja uma página.

Talvez seja apenas começar.

E amanhã podes fazer outra pequena coisa.

Porque, no final, disciplina não é nunca perder o ritmo.

É aprender a voltar ao caminho.

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