Porque procrastinamos mesmo quando sabemos que precisamos de agir?

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9 min

Procrastinação é uma daquelas coisas que quase toda a gente conhece, mas que nem sempre entende. Sabemos que precisamos de estudar, enviar aquele e-mail, começar aquele projecto, organizar a nossa vida ou simplesmente fazer aquilo que estamos a adiar há dias. Mesmo assim, encontramos qualquer outra coisa para fazer.

“Vou começar daqui a pouco.”

“Primeiro vou só ver uma coisa no telemóvel.”

“Hoje não estou com cabeça para isso. Amanhã faço.”

E, quando percebemos, o dia acabou.

Mas porque fazemos isto? Porque procrastinamos mesmo quando sabemos exactamente o que precisamos de fazer?

A resposta não é simplesmente “porque somos preguiçosos”.

Na verdade, muitas vezes a procrastinação tem muito mais a ver com emoções, medo, pressão, perfeccionismo e dificuldade em lidar com o desconforto do que com falta de vontade.

O que é procrastinação?

Procrastinação é o acto de adiar voluntariamente uma tarefa ou decisão que sabemos que precisamos de realizar, mesmo sabendo que esse adiamento pode trazer consequências negativas.

Ou seja: não é simplesmente “não fazer”.

É saber que precisamos de fazer alguma coisa e escolher adiá-la.

E isto pode acontecer mesmo quando a tarefa é importante para nós.

É por isso que às vezes conseguimos passar uma hora a organizar a nossa galeria, responder a mensagens ou fazer scroll nas redes sociais, mas não conseguimos começar aquele trabalho de 30 minutos que está na nossa lista.

A tarefa não desapareceu.

Nós apenas estamos a tentar evitar aquilo que ela nos faz sentir.

Então porque procrastinamos?

Existem várias razões. E perceber qual delas está por trás da nossa procrastinação pode ser muito mais útil do que simplesmente dizer a nós mesmas para “ter mais disciplina”.

1. A tarefa parece maior do que realmente é

Já tiveste alguma coisa para fazer que parecia tão grande que nem sabias por onde começar?

Às vezes, o problema não é a tarefa em si. É a forma como a nossa cabeça está a olhar para ela.

“Tenho de estudar.” “Tenho de organizar o meu quarto.” “Tenho de começar o meu projecto.”

Tudo parece enorme.

E quando uma tarefa parece demasiado grande, o nosso cérebro procura uma alternativa mais fácil e imediata.

É muito mais simples abrir o TikTok durante cinco minutos do que decidir por onde começar um projecto que parece exigir horas de trabalho.

Uma forma simples de combater isto é transformar a tarefa numa acção muito pequena.

Em vez de:

“Tenho de estudar.”

Experimenta:

“Vou abrir os apontamentos e estudar durante 15 minutos.”

Em vez de:

“Tenho de começar o meu projecto.”

Experimenta:

“Vou criar o primeiro documento e escrever o título.”


2. Temos medo de fazer mal

Esta é uma das razões que mais facilmente confundimos com preguiça.

Queremos fazer alguma coisa, mas queremos fazê-la bem.

Então pensamos demasiado.

“E se não ficar bom?”, “E se as pessoas não gostarem?”. “E se eu descobrir que não sou tão boa quanto pensava?”

E, sem perceber, transformamos o medo de falhar numa razão para nem começar.

É aqui que o perfeccionismo pode alimentar a procrastinação.

Se acreditamos que só vale a pena começar quando temos a certeza de que vamos fazer um bom trabalho, podemos passar muito tempo à espera de uma segurança que provavelmente nunca vai chegar.

Às vezes, precisamos simplesmente de aceitar que a primeira versão pode ser má.

Começar mal ainda é começar.


3. Estamos a tentar evitar uma emoção desconfortável

Nem sempre estamos a fugir da tarefa.

Às vezes estamos a fugir daquilo que sentimos quando pensamos nela.

Uma tarefa pode trazer ansiedade, insegurança, tédio, medo, frustração ou até vergonha.

E o nosso cérebro percebe rapidamente que existe uma forma muito simples de deixar de sentir aquele desconforto por alguns minutos:

evitar a tarefa.

O problema é que o alívio é temporário.

Não fizemos o trabalho.

A tarefa continua lá.

E muitas vezes ainda ganhamos uma segunda emoção: culpa.

É assim que podemos entrar num ciclo:

tarefa → desconforto → adiamento → alívio momentâneo → culpa → mais desconforto → mais adiamento.

rmação.


4. Estamos cansadas, não preguiçosas

Nem todo adiamento é procrastinação.

Às vezes estamos simplesmente cansadas.

Vivemos numa época em que parece que deveríamos estar sempre a produzir alguma coisa: Estudar, trabalhar, fazer exercício, ler, aprender uma língua…

E ainda encontrar tempo para descansar.

Quando estamos constantemente cansadas, é natural que tarefas que exigem esforço pareçam ainda mais difíceis.

Por isso, antes de concluir que precisas de mais disciplina, talvez seja importante perguntar:

Eu estou realmente a evitar esta tarefa ou estou simplesmente sem energia?

Descansar não é automaticamente procrastinar.

Às vezes, o descanso é aquilo que nos permite voltar a fazer as coisas com presença.


5. Estamos à espera de ter motivação

Existe uma ideia muito popular de que primeiro precisamos de sentir vontade e depois conseguimos agir.

Mas, na prática, muitas vezes acontece o contrário.

A acção pode vir antes da motivação.

Quantas vezes começaste alguma coisa sem vontade e, depois de alguns minutos, percebeste que afinal conseguias continuar?

Eu acho que este é um dos maiores problemas quando pensamos em produtividade: esperamos sentir-nos preparadas para começar.

Só que nem sempre vamos sentir-nos preparadas.

Nem sempre vamos estar motivadas.

Nem sempre vamos estar inspiradas.

E isso não significa que não podemos dar o primeiro passo.

Disciplina não significa estar sempre motivada.

Significa também aprender a agir mesmo quando a motivação não apareceu.



Como parar de procrastinar na prática?

Não existe uma fórmula mágica que faça desaparecer a procrastinação para sempre, mas podemos tornar o acto de começar muito mais fácil.

1. Escolhe apenas uma coisa

Quando temos dez tarefas pendentes, é fácil ficar paralisada.

Por isso, pergunta:

“Se eu pudesse terminar apenas uma coisa hoje, qual faria mais diferença?”

Começa por essa.


2. Divide a tarefa

“Estudar para o exame” é demasiado amplo.

“Ler cinco páginas” é concreto.

“Criar um negócio” é enorme.

“Organizar a minha vida” é enorme.

Quanto mais clara for a primeira acção, menos espaço deixamos para o cérebro inventar desculpas.


3. Usa a regra dos cinco minutos

Diz a ti mesma:

“Só vou fazer isto durante cinco minutos.”

Não precisas de prometer que vais terminar.

Só precisas de começar.

Depois dos cinco minutos, podes decidir se queres continuar.

Muitas vezes, o mais difícil não é fazer a tarefa.

É atravessar os primeiros minutos.


4. Não esperes pelo momento perfeito

O momento perfeito provavelmente não vai aparecer.

Não vais estar sempre descansada, motivada, não vais ter sempre tempo.

Por isso, aprende a trabalhar com aquilo que tens hoje.

Talvez hoje consigas fazer 20%.

Então faz os 20%.

A consistência não nasce de fazer tudo perfeitamente.

Nasce de continuar a aparecer.


5. Descobre o que estás realmente a evitar

Da próxima vez que perceberes que estás há 40 minutos a fazer qualquer coisa menos aquilo que precisas, pára.

Pergunta: “O que estou a evitar neste momento?”

Talvez seja a tarefa.

Mas talvez seja:

  • medo de falhar;
  • medo de ser julgada;
  • perfeccionismo;
  • cansaço;
  • confusão;
  • falta de clareza;
  • medo de descobrir que não és capaz.

Quando encontramos a verdadeira dificuldade, podemos trabalhar nela.


E se eu procrastinar outra vez?

Provavelmente vais.

Eu também vou.

E isto é importante porque, às vezes, transformamos um pequeno episódio de procrastinação numa prova de que “não conseguimos ser disciplinadas”.

Um dia improdutivo transforma-se numa semana.

Uma semana transforma-se num mês.

E começamos a pensar:

“Já estraguei tudo.”

Mas não estragaste tudo.

Voltar também faz parte do processo.

Podes voltar hoje.


Talvez o problema não seja falta de disciplina

Quanto mais penso sobre procrastinação, mais acho interessante esta distinção.

Às vezes dizemos:

“Eu preciso de mais disciplina.”

Mas talvez precisemos de clareza.

Talvez precisemos de descansar.

Talvez precisemos de deixar de exigir perfeição.

Talvez precisemos de aceitar que temos medo.

Talvez precisemos de aprender a estar desconfortáveis sem fugir imediatamente.

E talvez, em alguns momentos, realmente precisemos de disciplina.

O importante é não colocar tudo dentro da mesma caixa.

Porque se tratarmos cansaço como preguiça, vamos descansar menos.

Se tratarmos medo como falta de disciplina, vamos continuar a fugir.

Se tratarmos falta de clareza como procrastinação, vamos continuar sem saber por onde começar.

E se tratarmos tudo como falta de motivação, vamos passar demasiado tempo à espera de sentir vontade.

Começar é uma habilidade

Talvez não precises de uma nova aplicação de produtividade.

Talvez não precises de uma rotina perfeita.

Talvez não precises de acordar às cinco da manhã.

Talvez só precises de aprender a tornar o primeiro passo pequeno o suficiente para conseguires dá-lo.

Abre o documento.

Escreve a primeira frase.

Estuda uma página.

Responde àquela mensagem.

Arruma uma gaveta.

Faz cinco minutos.

E depois vê onde esses cinco minutos te levam.

Porque, no fim, vencer a procrastinação não significa nunca mais adiar nada.

Significa não deixar que o adiamento decida por nós aquilo que queremos fazer com a nossa vida.

E talvez seja essa a parte que mais importa.


Para reflectires

Da próxima vez que perceberes que estás a procrastinar, não te perguntes apenas:

“Porque é que eu não consigo fazer isto?”

Experimenta perguntar:

“O que estou a sentir neste momento e o que estou a tentar evitar?”

A resposta pode surpreender-te.

E pode ser exactamente o ponto de partida de que precisavas.

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