É estranho admitir que às vezes podemos ter medo de conseguir aquilo que dizemos querer.
Estamos habituadas a falar do medo de falhar.
“E se não der certo?”
“E se eu não for boa o suficiente?”
“E se as pessoas não gostarem?”
Mas existe uma pergunta que quase nunca fazemos:
E se der certo?
E, sinceramente, acho que essa pergunta pode ser tão assustadora quanto a primeira.
Eu quero isto. Mas e se realmente acontecer?
Às vezes passamos tanto tempo a desejar alguma coisa que imaginamos que, quando finalmente acontecer, vamos simplesmente ficar felizes.
Só que talvez não seja assim tão simples.
Porque conseguir aquilo que queremos também pode significar ter de lidar com coisas novas: mais responsabilidade, expectativas, mais pessoas a olhar para nós, mais decisões, mais coisas para perder…
E, de repente, aquilo que parecia ser apenas um sonho começa a parecer uma realidade que precisamos de sustentar.
Talvez seja por isso que, às vezes, adiamos.
Não porque não queremos, mas porque uma parte de nós está a pensar:
“Será que estou preparada para a vida que digo querer?”
O sucesso também pode ser desconhecido
Existe conforto no que já conhecemos.
Mesmo quando não gostamos completamente da nossa situação actual, sabemos como ela funciona.
Sabemos o que esperar.
Sabemos quais são os nossos limites.
Sabemos quem somos dentro daquela realidade.
Mas quando alguma coisa começa a dar certo, essa realidade pode mudar.
Imagina quereres muito começar a criar conteúdo e, de repente, um vídeo teu chega a milhares de pessoas.
Ou quereres abrir um negócio e começares realmente a ter clientes.
Ou trabalhares durante meses para uma oportunidade e finalmente conseguires.
É maravilhoso.
Mas também pode ser assustador.
Porque agora já não estás apenas a imaginar.
Está a acontecer.
E talvez tenhas de descobrir uma nova versão de ti para acompanhar aquilo que está a acontecer.
“E se eu não conseguir manter?”
Este é um medo que acho particularmente interessante.
Às vezes conseguimos alguma coisa e, em vez de aproveitar, começamos imediatamente a pensar:
“E se eu não conseguir fazer isto outra vez?”
“E se as pessoas perceberem que foi sorte?”
“E se esta for a única vez?”
“E se eu não for tão boa quanto pensam?”
Então, em vez de celebrarmos, começamos a tentar provar novamente que merecemos estar ali.
É quase como se a conquista viesse acompanhada de uma nova obrigação:
agora tenho de continuar a ser boa.
Mas uma conquista não precisa transformar-se numa dívida.
Não precisas provar todos os dias que mereces aquilo que conseguiste.
E se as pessoas começarem a esperar mais de mim?
Talvez também exista medo de sermos vistas.
Enquanto estamos a tentar, podemos dizer:
“Estou a aprender.”
“Estou a começar.”
“Ainda não sou muito boa.”
Mas quando começamos a ter resultados, essas desculpas desaparecem.
As pessoas começam a reparar.
Começam a perguntar.
Começam a esperar coisas de nós.
E isso pode ser desconfortável.
Principalmente quando ainda estamos a descobrir quem queremos ser.
Às vezes é mais fácil esconder o nosso potencial do que lidar com a possibilidade de alguém esperar que o usemos.
Talvez tenhas medo de deixar de ser quem és
Esta é uma parte que acho que raramente discutimos.
E se crescer significar mudar?
E se conseguires aquilo que queres e a tua vida ficar diferente?
E se começares a ganhar mais dinheiro?
E se fores para outro país?
E se construíres a carreira que queres?
E se começares a ter uma audiência?
E se deixares de ter algumas das mesmas preocupações que tens hoje?
Mudanças boas continuam a ser mudanças.
E qualquer mudança pode trazer uma espécie de luto pela versão anterior de nós.
Podemos querer muito uma vida nova e, ao mesmo tempo, ter medo de deixar para trás algumas partes da vida que conhecemos.
Isso não significa que não queremos crescer.
Significa apenas que crescer também exige despedirmo-nos de algumas versões nossas.
Mas não precisamos estar completamente preparadas
Talvez este seja o ponto que mais preciso de lembrar.
Eu não preciso de saber exactamente como vou lidar com algo que ainda nem aconteceu.
Não preciso ter todas as respostas antes de começar.
Não preciso saber como vou sustentar uma oportunidade antes de ela aparecer.
Posso aprender.
Posso pedir ajuda.
Posso cometer erros.
Posso adaptar-me.
Posso descobrir pelo caminho.
Às vezes esperamos sentir-nos preparadas para começar.
Mas talvez a confiança venha precisamente depois de começarmos a fazer coisas que nunca fizemos antes.
E se der certo?
Talvez esta seja uma pergunta que vale a pena começar a fazer.
Não apenas: “E se eu falhar?”
Mas também: “E se eu conseguir?”
E depois:
O que mudaria?
Como me sentiria?
O que teria de aprender?
Que responsabilidades surgiriam?
Que versão de mim precisaria de aparecer?
O que teria medo de perder?
Estas perguntas não servem para criar mais ansiedade.
Servem para perceber que, às vezes, aquilo que estamos a evitar não é a possibilidade de falhar.
É a possibilidade de a nossa vida realmente mudar.
Não precisas diminuir os teus sonhos para te sentires segura
Talvez já tenhas feito isto sem perceber.
Querer alguma coisa e depois convencer-te de que, afinal, não era tão importante.
Pensar em começar e encontrar mil razões para esperar.
Dizer que “não é para tanto”.
Fingir que não te importas tanto com o resultado para que uma eventual desilusão doa menos.
Eu entendo.
É uma forma de nos protegermos.
Mas também pode ser uma forma de nos mantermos pequenas.
Não acho que devamos viver obcecadas com o sucesso.
Mas também não acho que devamos ter vergonha de admitir que queremos coisas grandes.
Podemos querer.
Podemos tentar.
Podemos ter medo.
As três coisas podem existir ao mesmo tempo.
Talvez o próximo passo seja simplesmente tentar
Não precisas resolver hoje todos os medos que tens sobre o futuro.
Talvez só precises de fazer aquela coisa que tens adiado.
Enviar a candidatura.
Publicar o primeiro trabalho.
Começar o projecto.
Inscrever-te naquele curso.
Mostrar a alguém aquilo que criaste.
Fazer a proposta.
Dar o primeiro passo.
E depois descobrir o resto.
Porque talvez nunca exista um momento em que estejas completamente preparada para a vida que queres.
Talvez a preparação aconteça enquanto a estás a construir.
E, se um dia aquilo que tanto querias finalmente acontecer, espero que te permitas parar por um momento e perceber:
“Eu tinha medo disto. E agora está a acontecer.”
Talvez não precises ter todas as respostas.
Talvez só precises de confiar que, quando a tua vida mudar, tu também vais aprender a mudar com ela.