Há uma fase da vida em que parece que toda a gente começou a avançar menos tu.
Uma pessoa conseguiu o primeiro estágio. Outra já está a trabalhar. Alguém começou um mestrado. Outra pessoa criou um negócio. Vês alguém da tua idade a publicar no LinkedIn sobre uma nova oportunidade e, de repente, começas a fazer contas.
“Eu devia estar a fazer isto também.”
“Se calhar estou atrasada.”
“O que é que eu andei a fazer este tempo todo?”
E o pior é que, às vezes, nem sequer estás insatisfeita com a tua vida.
Só estás a olhar demasiado para a vida dos outros.
Existe uma linha do tempo que ninguém te entregou
Acho que uma das coisas que mais nos pressiona no início da vida adulta é a ideia de que existe uma idade certa para cada conquista.
Aos 18 devias entrar na universidade.
Aos 20 devias saber o que queres fazer.
Aos 22 devias terminar o curso.
Depois arranjar emprego.
Depois construir carreira.
E, de alguma forma, parece que se não cumprires esta sequência estás atrasada.
Mas quem decidiu isso?
A vida não funciona assim.
Há pessoas que descobrem o que querem aos 18. Outras aos 25. Outras aos 30.
Há quem comece a trabalhar cedo e depois perceba que quer mudar completamente de área.
Há quem passe anos a estudar antes de descobrir aquilo que realmente gosta.
Há quem tenha oportunidades muito cedo e há quem precise de esperar muito mais tempo por elas.
Não existe uma única linha do tempo.
Talvez não estejas atrasada. Talvez estejas a começar de um ponto diferente.
É fácil olhar para alguém e comparar resultados.
Mais difícil é lembrar que não começámos todos do mesmo lugar.
As oportunidades que tiveste, o apoio que recebeste, os recursos que tinhas, as responsabilidades que carregaste, as pessoas que conheceste e até o lugar onde nasceste podem influenciar o caminho profissional de uma pessoa.
Por isso, comparar apenas idades e conquistas não conta a história toda.
E mesmo quando duas pessoas tiveram oportunidades semelhantes, continuam a ser pessoas diferentes.
Com ritmos diferentes.
Interesses diferentes.
Prioridades diferentes.
E vidas diferentes.
O problema de transformar a carreira numa corrida
Quando começas a pensar na tua carreira como uma corrida, qualquer pessoa que esteja à tua frente parece uma prova de que estás a perder.
E isso pode fazer-te tomar decisões apenas para não ficares para trás.
Aceitar qualquer oportunidade porque “precisas de começar”.
Escolher uma área porque parece estar a dar certo para toda a gente.
Fazer um curso só porque sentes que já devias estar a estudar alguma coisa.
Candidatares-te a tudo, não porque queres aquelas oportunidades, mas porque tens medo de não ter nenhuma.
E, sem perceberes, deixas de perguntar:
“Isto faz sentido para mim?”
E passas a perguntar:
“Isto faz-me parecer avançada?”
São coisas muito diferentes.
Também podes estar a avançar sem teres uma grande conquista para mostrar
Nem todo o progresso fica bonito num currículo.
Aprender uma competência.
Melhorar o teu inglês ou francês.
Criar um projecto pessoal.
Fazer um curso.
Aprender a comunicar melhor.
Descobrir que determinada área não é para ti.
Começar a construir um portfólio.
Ter coragem para te candidatares a uma oportunidade mesmo achando que não estás preparada.
Até aprenderes a organizar melhor o teu tempo e a conheceres melhor aquilo que queres pode fazer parte da construção da tua carreira.
Nem tudo precisa de aparecer numa publicação no LinkedIn para contar.
E talvez precises de parar de olhar tanto para o que os outros estão a fazer
Eu sei que é difícil.
Principalmente quando as redes sociais transformam as conquistas das outras pessoas numa espécie de calendário público.
Todos os dias há alguém a conseguir uma bolsa, um estágio, um emprego, uma promoção, a viajar, a terminar o curso ou a começar um projecto.
E tu vês tudo.
Só que ninguém publica os meses em que não aconteceu nada.
As candidaturas que foram rejeitadas.
As dúvidas.
Os atrasos.
As oportunidades que não apareceram.
As vezes em que aquela pessoa também se sentiu perdida.
Estás a comparar o teu processo inteiro com pequenos momentos seleccionados da vida de outras pessoas.
É uma comparação impossível de ganhar.
Pergunta-te: atrasada em relação a quê?
Esta pergunta pode parecer simples, mas acho que vale a pena fazê-la.
Atrasada em relação a quem?
E, principalmente:
Atrasada em relação a quê?
Porque talvez tenhas uma ideia muito clara de onde “deverias” estar, mas nunca tenhas parado para perceber se esse lugar é realmente aquilo que queres.
Talvez estejas a correr para chegar a um destino que escolheste apenas porque parecia ser o próximo passo.
E talvez o que precises não seja de acelerar.
Talvez precises de parar e escolher melhor a direcção.
Não precisas recuperar o tempo perdido
Se sentes que começaste tarde, é normal quereres compensar.
Querer fazer tudo rapidamente.
Aprender cinco competências ao mesmo tempo.
Candidatares-te a todas as oportunidades.
Trabalhar sem parar para “recuperar”.
Mas a tua carreira não precisa de ser uma corrida para compensar os anos anteriores.
Não precisas provar que consegues recuperar o tempo.
Precisas de construir alguma coisa que faça sentido para ti daqui para a frente.
E isso pode começar hoje.
Com uma candidatura.
Um projecto.
Uma conversa.
Uma pesquisa.
Uma hora de estudo.
Uma decisão que tens vindo a adiar.
Não parece muito quando olhas para um único dia.
Mas é assim que as coisas começam.
O teu caminho não ficou para trás
Talvez estejas exactamente onde precisas de estar para a próxima fase da tua vida.
Ou talvez realmente precises de fazer algumas mudanças.
Só tu podes descobrir isso.
Mas tenta não tomar decisões importantes a partir do medo de estar atrasada.
Não escolhas uma carreira porque toda a gente parece estar a escolhê-la.
Não aceites uma oportunidade apenas para teres alguma coisa para mostrar.
Não transformes a conquista de outra pessoa numa acusação contra ti.
E não uses a idade como prova de que devias estar mais longe.
A tua vida não tem uma data de validade para começar.
Podes começar agora.
Podes recomeçar.
Podes mudar de área.
Podes descobrir uma nova coisa aos 20, aos 25 ou aos 30.
E talvez um dia olhes para trás e percebas que não estavas atrasada.
Estavas apenas a construir o teu caminho num ritmo que não parecia igual ao dos outros.
E tudo bem.
Não precisas chegar primeiro.
Precisas chegar a um lugar que realmente seja teu.
Deixe um comentário